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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Dias de abandono - Elena Ferrante

Tradução: Francesca Cricelli
Editora: Biblioteca Azul / 2016
Título original: I giorni dell’abbandono
Romance italiano
Ler Laços me fez querer voltar a ler o que mais gostei de Ferrante: Dias de Abandono. Sei que irei reler este livro muitas vezes.
Podem enquadra-lo como clichê, previsível, mas amei Olga e sua desventura de mulher abandonada. Vestir a pele da personagem e viver a loucura de um amor imaginado roubado de si e a reconstrução do que se é será para mim um deleite. Chega quase à loucura, sentimos raiva de Mário, o marido que a troca por uma quase adolescente, raiva doa dois filhos pirralhos que não tem culpa,  mas ter nascido e complicado a vida já é uma boa culpabilidade. Olga é mais forte que muitas mulheres e, se ultrapassou seus próprios limites, há muitas razões humanas para desculpa-la.
Mário pode ser condenado por se apaixonar por outra mulher?  Não. A não ser a condenação que mora em nossas cabeças egoístas e pequenas. 
Um ótimo livro.  Leiam! Leiam!

"Talvez quisesse abandoná-los de verdade para sempre, esquecer-se deles, para depois bater a cabeça, quando finalmente tivesse reaparecido Mario, a exclamar: os seus filhos? Eu não sei. Eu perdi, acho: vi-os pela última vez há um mês, na pracinha Cittadella."

"Eu fingia que estava ocupada na cozinha, mas esperava ansiosamente que Mario passasse por mim e me esclarecesse quais eram suas intenções, se tinha ou não desfeito o balaio de gato que estava em sua cabeça. Ele, mais cedo ou mais tarde, chegava, mas sem vontade, e com um mal-estar, cada vez mais visível, ao qual eu me opunha, usando uma estratégia que havia criado durante as noites insones, ou seja, a encenação dos confortos da vida doméstica, tons de compreensão, uma calma exibida e acompanhada até por alguma brincadeira para aliviar."

"Certamente, tive de passar rapidamente a borracha por cima da sua fisionomia macia dos vinte anos, antes de recuperar o rosto ainda não maduro, cortante e ainda infantil de Carla, a adolescente que estivera no centro da nossa crise conjugal, anos atrás. Certamente, só quando a reconheci fui surpreendida pelos brincos, os brincos da avó de Mario, os meus brincos."

Elena Ferrante
Pseudônimo de uma escritora italiana, cuja identidade é mantida em segredo. Especula-se que seja uma tradutora ou até mesmo um homem.
Fonte: Wikipédia

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Laços - Domenico Starnone

Título original: Lacci
Romance / literatura italiana
Tradução : Maurício Santana Dias
144 páginas
Editora Todavia / 2017

Case-se, porém nunca terá a certeza porque o fez, breve o sentimento mudará e será forçado a conviver por conta de filhos que lhe carregarão de culpa, herança maldita de todos os pais.
Assim Aldo, depois de 12 anos casado,  sentiu quando abandonou a família para viver uma paixão com Lídia. Vanda, a esposa abandonada, não tem conformação, além de carregar a obrigação dos filhos. Os filhos que presenciam todo o drama de uma separação e querem para si seu quinhão: responsabilidade de quem os pôs no mundo.
Assim o romance de Starnone nos deixa refletindo.
Dividido em três partes: o primeiro na voz de Vanda com 34 anos em forma de cartas a Aldo, 32, quando da separação dos dois, com muita revolta, sofrimento e desespero criado e real também. O segundo, Aldo diz sua versão em narrativa 42 anos depois, ele com 74 e ela com 76 anos, presente,  alternando com lembranças passadas, evocadas pela invasão da casa onde moram por vândalos que a deixou em desordem, retirando cartas e fotos já esquecidas de seus esconderijos. A terceira parte os filhos Sandro e Anna (sendo essa a primeira pessoa) responsáveis pela manutenção da casa dos pais enquanto eles fazem uma viagem para alimentar o gato Labes. Não se dão bem, mas o que foram na infância é mostrado na fase adulta.
Um bom livro, bem escrito, concatenação muito boa. Recomendo. 

"(...) É melhor não ter filhos. (...) A gente acaba fazendo mal aos filhos e, consequentemente, é preciso esperar que eles nos mais mal ainda."

Tanto eu quanto ela conhecemos a arte da reticência. Da crise de tantos anos atrás ambos aprendemos que, para viver juntos, é preciso dizer bem menos do que calamos. Funcionou. O que Vanda diz ou faz é quase sempre o sinal daquilo que esconde. E minha concordância contínua encobre que há décadas não temos nenhum tipo, absolutamente nada, de sentimento em comum.”
 
Domenico Starnone nasceu em 1943, em Nápoles,  atualmente vive em Roma. Escritor,  roteirista,  jornalista.
Há suspeitas que o escritor seja a misteriosa Elena Ferrante, identidade também atribuída a sua esposa, Anita Raja.