terça-feira, 29 de setembro de 2015

Réquiem: sonhos proibidos - Petê Rissatti

aO Governo Mundial decide proibir os sonhos e possui mecanismos para capturar os habitantes que não cumpram as regras, ou deixem de tomar suas doses diárias do Réquiem, substância inibidora dos sonhos e de controle da personalidade. Semelhanças com 1984 de Orwell e a soma? Sim, muitas, mas paremos as comparações por aí. São níveis bem distintos.
Ivan, o personagem principal, não toma sua dose de Réquien e sonha. E é sequestrado. E de um passivo burocrático funcionário do Governo Mundial, transforma-se. Apaixona-se.
Para quem leu Orwell, o livro é entediante, sem lógica, principiante até. Não recomendo.
Sem passagens.

O Cativeiro - Ivan Camargo

aTed Macedo é filho dos “proprietários” da Idolatrada Igreja dos Inquilinos da 171a Casa do Senhor, acusados de enriquecimento ilícito, sonegação fiscal, charlatanismo e calotes a granel. Chefiada pelo agente Costa, um policial-criminoso, uma quadrilha sequestra Ted, que passa a ser mantido refém na casa da mãe do agente, Zumira, uma senhora rabugenta e supostamente esclerosada. A negociação tem início, mas estranhamente os pais não se mostram dispostos a um acordo. Apesar disto, começam uma campanha de arrecadação, junto aos fiéis, a pretexto de pagar o resgate. Inspirado pela prática familiar, Ted tenta subornar os criminosos, prometendo muito mais vantagens a eles, na terra e no “céu”, acabando por semear a discórdia entre a quadrilha.
Fonte: Skoob
Peça teatral hilária. Vale a pena.

A Segunda Sombra - Nicci French

aJoanna Vine, menina de 5 anos some quando voltava da escola com a irmã. 22 anos a cena se repete com um menino da mesma idade, Matthew Farraday.  Entre eles, a psiquiatra Frieda Klein que se torna personagem principal. Alan Dekker, um homem que se sente fora de si e tem ataques de pânico a procura, passando antes pelo Dr Reuben McGill. Assim como o psiquiatra Reuben, Josef, o pedreiro e  Jake, o estagiário, entre outros, são personagens na trama que se percebe não há a razão de lá estarem, são vagos, desnecessários. O motivo que leva a psiquiatra a procurar o policial Karlsson, responsável pela investigação, para relatar sua suspeita de sequestro é válida, porém o que encaminha a suspeita para um terceiro torna-se completamente sem lógica, carecendo, para isso, mais um personagem aleatório, um psicólogo  que estuda gêmeos idênticos, porém seu acréscimo se dá após a suspeita criada pela médica. Um livro que não tem final surpreendente, falhas de lógica e acréscimos desnecessários de figuras criadas e passagens. Porém vale a pena pelo conteúdo psicológico.
Passagens:
"De repente — ou seria gradualmente? — ele havia começado a achar seus pacientes tediosos. Essa era a grande diferença entre a psiquiatria e as outras formas de medicina. Nessas últimas, o paciente se apresenta e o médico examina seu braço, pede um raio-X do tórax ou examina embaixo da língua. Mas um terapeuta precisa ouvir os sintomas repetidas vezes, de forma contínua, hora após hora. Nos últimos anos, não estava sendo assim. Reuben tinha a sensação de estar ouvindo uma forma particularmente pura de literatura, uma versão oral, que precisava de interpretação, decodificação. Com o tempo, passou a achar que se tratava de um tipo horrível de literatura, cheia de clichês, repetitiva e previsível. Depois, começou a acreditar que não era nada disso, mas apenas um palavrório desinformado e sem reflexão, e que se deixava fluir por ele como um rio, como o trânsito, como ficar em uma ponte sobre uma estrada e assistir a carros e caminhões passando por baixo, pessoas sobre as quais você não sabe nada e com as quais não se importa. Elas falavam, às vezes choravam, e ele pensava em outras coisas e esperava pelo cigarro que viria exatamente um minuto após o término da sessão."
"Você não acreditaria até onde cheguei. Não imagina a merda que passa pela mente humana, e eu andei no meio disso, enterrado até o pescoço. Homens me contaram coisas sobre crianças e mulheres me contaram coisas sobre seus pais e tios, e nunca entendi por que eles não saíam da sala e estouravam seus malditos miolos. Eu achava que se os acompanhasse na jornada, se mostrasse a eles que não estavam sozinhos, que se pudessem compartilhar aquilo, talvez superassem os problemas e fossem capazes de recomeçar suas vidas. E sabe de uma coisa? Depois de trinta anos disso, não aguentei."
"Era mesmo tão importante falar sobre as coisas? Falar sobre elas seria apenas mais um modo de se envolver ainda mais com os pacientes, quando na verdade o que deveriam fazer era ajudá-los a se sentir melhor? "
"As pessoas falam que nosso cérebro é como um computador. Se fosse verdade, o que não é, o computador veio ao mundo com muitos de seus softwares pré-instalados. Sabe, como uma tartaruga que passa a vida toda no mar. Ela não aprende observando a mãe como ir até a praia, botar seus ovos e enterrá-los. Certos neurônios simplesmente começam a ser acionados de formas que não entendemos, e ela apenas sabe o que deve fazer. O que meu estudo com gêmeos mostrou é que muito do que parece reação ao ambiente, tomada de decisões usando o livre-arbítrio, é apenas a execução de certos padrões com os quais o sujeito nasceu."

Resgate do Passado - A história de uma pessoa tímida - Ruy Miranda

aJoman é vítima e beneficiário de circunstâncias da vida. Antes mesmo de nascer já estavam plantados os primeiros motivos que o levariam a se tornar tímido. A tolerância do pai, um imigrante português, e a repressão excessiva da mãe, uma brasileira, criaram um ambiente familiar ambíguo que reprimia sua natureza. Como resultado de sua timidez experimentou muitos sofrimentos ao longo da infância, adolescência e na começo da vida adulta. Depois de se envolver no negócio de diamantes, Joman consegue atingir uma relativa estabilidade na vida familiar e profissional. No entanto, o aparecimento súbito de uma doença fatal ameaça mudar tudo. Em seu último ano de vida, ele decide finalmente superar sua timidez e saborear o gosto da liberdade real. Abrindo-se para a vida, encara inúmeros desafios, passa perto da morte e até por alguns momentos fortuitos, como o achado de um grande diamante. Outros eventos inesperados dão à vida de Joman um sentido completamente novo e contribuem para uma profunda transformação pessoal. Prepare-se para emoções o tempo todo. O autor é um psiquiatra.
Fonte: Skoob
Passagens:
"Uma profunda melancolia o invade. Vai para a margem do rio, senta-se num barranco, e o espelho de água inspira-lhe uma tétrica fantasia. Olha aquela vastidão de água e tem ímpeto de caminhar rio adentro, até não ter pé. Seguem-se o silêncio e a paz, que duram pouco tempo na sua imaginação, ao lembrar-se do desespero que sentiu quando estava se afogando e de como foi abençoada aquela mão amiga do Neneco, que chegou para puxá-lo. Volta para casa tão abatido como saiu e ainda confuso com a vontade que teve de pôr fim à sua vida. “Como fui pensar essa coisa? Morrer é ruim demais!”, diz para si mesmo. “Mas pra que serve a vida? Era melhor eu ter nascido uma minhoca, que não pensa, não sente essas coisa… Viver também é muito ruim""
" “Como é bom ficar livre de fantasmas!” Aliviado completa: “E se eu ficar louco, não tem importância. Nada é pior do que viver prisioneiro”"
"Quando o carcereiro se afasta, o estudante indaga-lhe:
– Você é masoquista? O que é isto?
– A pessoa que gosta de sofrer, que sente prazer em sofrer.
– Moço – volta Joman –, você não sabe o que é sofrer. Não sofrer uma hora, duas, mas sofrer a vida inteira. Eu sei o que é isso."
"No caminho para casa ele se recorda do período daquela paixão. Percebe que ela acabou definitivamente, embora não consiga saber quando. Contudo, compreende que precisou dela, precisou alimentar-se daqueles sonhos para sobreviver. E chega a uma conclusão: “Foi melhor o namoro não ter acontecido, porque pude imaginar o que quis. Se tivesse acontecido, não tinha sido tão bacana"
" - A não ser que ele tenha uma ação desconhecida. É um remédio novo. Trouxemos do exterior, onde estivemos num congresso médico. Mas é indicado só para certos tipos de pressão alta.
– Que remédio que é? – continua Joman.
– É um betabloqueador…
– Beta o quê?
O médico repete, e continua:
– Ele bloqueia certas terminações nervosas e faz abaixar alguns tipos de pressão arterial elevada. O nome do princípio ativo é propranolol.
– Um dos senhores disse que abaixou a dose? – volta Joman.
– Eu disse – responde o mesmo médico. – As duas primeiras doses deram um total de 80 miligramas, 40 miligramas em cada tomada, com intervalo de doze horas. Depois baixamos para 20 miligramas em cada porque a pressão já tinha normalizado.
– Será que foi isso? – indaga, pensativo, o médico mais velho."
"(...) parece incrível que Joman, em menos de um mês, volte a sentir o desassossego de espírito, mas é o que acontece. “Além de não me sentir feliz, fica essa coisa ruim, essa gastura o tempo todo”, lamenta-se. Por mais que procure, não encontra o que falta. Medo ele já não tem nenhum. Fala com qualquer pessoa, fala em grupos, é desinibido. Tem grande confiança em si mesmo. Está econômica e financeiramente bem. O relacionamento em casa é ótimo. Percebe que não se sente em dívida com quem quer que seja. É difícil encontrar um problema que justifique tal estado, esse mal indefinido que se expressa em matizes diferentes no transcorrer do tempo."

Dez (quase) amores - Cláudia Tajes

aComédia romântica que narra os dez (quase) amores de Maria Ana, estórias para rir, entrelaçados no decorrer da vida da personagem, desde a adolescência, à procura daquele que ocupará o seu lado no altar de uma Igreja. Alguns casos "lugar comum", previsíveis, mas não menos engraçados, outros inusitados, divertidos todos. Um livro que se Lê num estalar de dedos, escrita que flui. Não tão bom quanto "Vida Dura', da mesma autora, mas também uma leitura leve e nos tira risos, distrai.

Vida Dura - Cláudia Tajes

aNome: Leonel de Moura Brizola Coelho. Homenagem do pai ao político do Rio Grande do Sul. Apesar de ter nascido carioca, a mãe, ao se separar do marido, decide ir pro sul do país, onde arranja um emprego de caixa de lanchonete. Leonel cresce sem a presença do pai, mas também a presença de vários outros pais, os tantos maridos que a mãe arranja em sua infância e adolescência. Depois de ser despedido, aos 23 anos, de uma loja de brinquedos, Leonel decide tornar-se doador para bancos de sêmen, uma forma de garantir um salário melhor num trabalho "divertido". A estória é escrita de forma magistral, excelente composição, divertidíssima. Recomendo a leitura. Fiquei fã da autora.

Pilatos - Carlos Heitor Cony

Após ser atropelado, um homem (Álvaro Picadura) tem o órgão sexual decepado e posto em um recipiente com substâncias para conservá-lo. Depois de sair do hospital, passa por diversas situações, sempre junto com Herodes (nome que deu desde a adolescência a sua parte íntima), encontrando personagens que compõem uma estória hilária e digna de Cony. Ler nas entrelinhas do livro o submundo marginal da miséria e solidão dos que vivem esquecidos da sociedade, construindo símbolos e acreditando em fantasias que os matem sãos - ou não tanto -, vivendo pela condição humana de "sobreviver", fazendo referência também à época da ditadura militar. O livro é uma viagem com muitas gargalhadas, enternecimentos da alma e reflexões. 

Carlos Heitor Cony
Carlos Heitor Cony
Nasceu no Rio de Janeiro em 1926, fez humanidades e curso de filosofia no Seminário de São José. Estreou na literatura ganhando por duas vezes consecutivas o Prêmio Manuel Antônio de Almeida (em 1957 e 1958) com os romances “A Verdade de Cada Dia” e “Tijolo de Segurança”. Cony trabalha na imprensa desde 1952, inicialmente no Jornal do Brasil, mais tarde no Correio da Manhã, do qual foi redator, cronista  e editor. Depois de várias prisões políticas durante a ditadura militar e de um período no exterior, entrou para o grupo Manchete, no qual lançou a revista Ele e Ela e dirigiu as revistas Desfile e Fatos&Fotos. Atualmente, é colunista da Folha de S.Paulo, comentarista da rádio CBN. Como diretor da teledramaturgia da Rede Manchete, apresentou os projetos e as sinopses das novelas “A Marquesa de Santos”, “Dona Beija” e “Kananga do Japão”. Em 1998, o governo francês, no Salão do Livro, em Paris, condecorou-o com a L'Ordre des Arts et des Lettres. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em março de 2000. “O Ventre” romance de estréia de Cony fez em 2008 cinquenta anos.
Ganhou os seguintes prêmios:
Manuel Antônio de Almeida (em 1956 e 1957)
Jabuti (em 1996, 1998 e 2000)
Livro do Ano (em 1996 e 1998 e 2000)
Prêmio Nacional Nestlé (em 1997)
Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de obra, em 1996
Fonte: http://www.carlosheitorcony.com.br/