domingo, 4 de dezembro de 2016

Jantar secreto - Raphael Montes

Jantar Secreto
Raphael Montes
Editora Schwarcz / 2016
376 páginas
Literatura brasileira

Tenho sério  problema com Raphael Montes: uma espécie de vício, ao devorar a primeira página, só paro quando fecho a última folha, como uma refeição das mais apetitosas já provadas. Tietagem de fã à parte, vamos ao Jantar Secreto, que,  aliás, tem tudo a ver com o tema gastronômico.
Cinco amigos de infância lá do interior do Paraná, de uma cidade chamada Pingo D'Água, passam no vestibular e se mudam para o Rio de  Janeiro, dividindo um apartamento em Copacabana. Dante, Leitão, Hugo e Miguel.
Leitão, o obeso amigo que abandonou a faculdade logo nos primeiros anos, apaixona-se por uma prostituta Cora contratada pelos amigos para presente de aniversário dele e, para pagar os serviços prestados, deixa de pagar o aluguel do apartamento, tarefa dele. Voltar à cidade pequena Pingo é o maior pesadelo de todos. Então, para saldar a dívida, eles bolam um jantar para convidados que se proponham a pagar um valor alto e para poucos participantes, aproveitando o curso de gastronomia de Hugo, que seria o chef cozinheiro, Cora entra também no negócio. Leitão, o responsável pela parte tecnológica, altera um detalhe no convite para o jantar: seria servido carne humana, ou, como eles preferem chamar "carne de gaivota". A procura foi maior do que eles esperavam e, para honrar o compromisso, arranjam um corpo e fazem o jantar secreto para os dez canibais, digo, comensais. Porém, o sucesso é tanto que um dos convidados pagantes, Umberto, não aceita que fique apenas num único evento, traça uma trama para que seja dado continuidade ao projeto canibalesco. De dois jantares semanais, passa-se a três. Preços mais elevados. Fila de espera. A carne humana vicia.
E os corpos? De onde viriam? Logo descobrem  que Umberto mentia sobre a origem de defuntos frescos para refastelar os famintos. E a culpa? Não haveria também via em um boi, um coelho ou um porco?
Um livro que te prende, faz rir e a cada capítulo algo novo e inesperado te surpreende. Magnífico! Nunca deixarei de ler Montes, coleciono seus livros com um prazer de faminta frente a um prato saboroso.

"Deixa de ser besta… A mulher já tava morta. Depois de morto, todo bicho é igual. Você é engraçado, sabia? Se a carne vem naquele pacote, coberto no plástico transparente, você não se importa. Pega, frita e come sem nem pensar de onde veio. Agora fica aí, cheio de mi-mi-mi. Quer saber? A única diferença é que não sou hipócrita como você."

"Certa vez, num banheiro público, havia um poema:
            “Você é o que você come
            Você come o que você é.”"

"Comecei a encarar o dia seguinte como um sonho psicodélico. Aquelas pessoas só queriam comer carne humana porque precisavam viver alguma experiência que injetasse adrenalina em sua vida monótona. Cora estava certa: não dava para ser hipócrita. Eu comia carne desde criança, não comia? Nunca me importei com o sofrimento do boi, com a tortura do ganso, nunca perdi um segundo de sono em homenagem aos porcos e aos frangos que devorei ao longo de toda a minha existência. No fundo, aquelas pessoas não eram tão diferentes de mim. Finalmente, consegui dormir."

"Certa vez, num banheiro público, havia um poema:
            “A carne mais barata do mercado
            É a carne negra.”"


sábado, 3 de dezembro de 2016

A amiga genial - Elena Ferrante

A Amiga Genial / Título original: L'amica geniale: infanzia, adolescenza
Elena Ferrante
Biblioteca Azul / 2015
331 páginas
Tradução: Maurício Santana
Romance Italiano
Lenu (Elena Greco) e Lina (Raffaela).  Lenu é a voz que narra a estória, desde os oito anos de idade,  iniciando uma amizade de brincadeiras e aventuras e continua ate os dezesseis, em Nápoles, década de 50. 
Ambas tem a ânsia de aprender, estudar,  serem as melhores, ricas, escritoras.  Lina sendo a inspiração para Lenu. Vão entrando na adolescência,  os primeiros namorados, o afastamento de Lina dos estudos, impedida de continuar pela família pobre, obrigada a trabalhar na sapataria do pai, junto com o irmão.  
O livro trata da amizade de ambas e de outros personagens e as vontades que impulsionam ou não seguir em frente, apostando no aprendizado e na sorte, numa competição mútua e admiração de Lenu por Lina.
Faz parte de uma tetralogia chamada napolitana.

A autora usa o pseudônimo de Elena Ferrante para escrever os livros.

Bufo & Spallanzani - Rubem Fonseca

Bufo & Spallanzani
 Ano de publicação: 1985
Editora:  Companhia das Letras  / 24ª edição / 1991
Romance brasileiro
Rubem Fonseca foi feliz ao construir Bufo e Spallazani, lê-se como se fosse um retalho de contos remendados, idas e vindas na linha do tempo.
Guedes, o policial que é indicado para investigar o possível suicídio de Delfina Delamare, tenta desvendar o que aconteceu, depois de perceber que se tratava de um assassinato.
Gustavo Flávio, escritor com mais de 20 livros publicados, tem de construir seu livro Bufo & Spallazani, mesmo envolvido pelo assassinato de sua amante, refugia-se numa estância isolada para tentar começar o trabalho e, mesmo na bucólica estância, não consegue se desligar da partida de Delfina. Também retorna ao passado, quando nem se chamava Gustavo Flávio nem era escritor, mas um funcionário de uma companhia de seguros e foi investigar a morte de um milionário com suspeita de fraude para receber o seguro de vida. A morte desse milionário, descobriu à  época, teria sido forjada pela ingestão de um veneno  de um sapo combinado com sumo de uma planta. Mas não era apenas o milionário e sua esposa envolvidos. Foi preso como louco, num manicômio judiciário e consegue fugir com a ajuda de Minolta, a namorada que desde sempre o acompanha.
Escrito em primeira voz pelo escritor Gustavo Flávio, o romance policial se revela apenas no final da trama.
Glutão, o personagem se perde nas descrições das refeições, na saciedade de sua fome também sexual.
Assim como no passado, o manicômio é seu refúgio novamente, mas não foge. A fuga agora é na instituição.

"Escrever é uma experiência penosa, desgastante, é por isso que existem entre nós, escritores, tantos alcoólatras, rogados, fugitivos, loucos, infelizes, mortos-vivos e velhos gagás."

"Para uns e para outros, despojados ou saciados, comer é a atividade mais importante que existe. Comer, comer! Como é bom! Não sou daqueles que comem bacalhau em grossas postas assadas, isso é uma rudeza gastronômica só comparável ao steak tartar"

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A menina má - William March

A Menina má / título original: The bad Seed
William March
Literatura norte-americana/ Ficção/suspense
Ano de publicação: 1954
Tradução: Simone Campos
Editora: Darkside

Rhoda Penmark é uma menina encantadora de oito anos, que sabe conquistar os adultos, pontual, aplicada, organizada e bem madura para a idade. Tanto que foi expulsa de um colégio por não se enquadrar nos padrões infantis. Pelo menos foi o argumento usado pelos diretores. Também é decidida, nada fica no caminho do que deseja. Qualquer obstáculo ela destrói. Literalmente, inclusive com a capacidade de matar. A mãe dela, Christine Penmark,  uma linda loira e descobre que a índole da filha não são tão inocentes e adoráveis quanto a garotinha tenta transparecer. Então decide investigar comio uma criança pode possuir os instintos e atitudes que percebe na filha. Então ela descobre a verdade sobre si mesma, o passado. Culpa, indecisão,  crise. Christine tem de decidir o que fazer com a pequena psicopata que gerou, percebendo que a hereditariedade poderia falar mais alto e os desastres seriam monumentais.
Muito bom o livro.
 "(...) A menina, quase desde bebê, tinha sido uma espécie de charada tanto para ela quanto para o marido. Era algo difícil de precisar ou identificar, mas havia uma estranha maturidade no caráter da menina que julgava perturbadora. Tanto ela como o marido haviam pensado que uma escola como a delas, uma instituição que enfatizava disciplina e as virtudes à moda antiga, seria a escola ideal para Rhoda - que eliminaria, ou pelo menos modificaria, alguns dos fatores desagradáveis do seu temperamento"
 

Quando voltará a ser como nunca foi - Joachim Meyerhoff

Quando voltará a ser como nunca foi
A loucura está do lado de dentro ou de fora?
Joachim Meyerhoff
Editora Valentina / Ebook / 2016
Literatura alemã
Tradução Karina Janini

Um menino cresce num hospício, entre os adolescentes pacientes que são internos, onde o pai é o médico responsável, diretor do  hospital e reside na casa construída dentro do prédio-hopício. E é a voz desse menino que narra em primeira pessoa estória, enquanto cada um na família tem seu papel bem detalhado: a mãe que questiona sua rotina, os irmãos em seus mundos, enquanto o menino convive com os realmente ausentes, a criança hóspede que tem seus problemas, que ele observa e entende. Talvez pela familiaridade de tê-los por perto, acostuma-se, supera os medos, sente pelos que se vão.
Um bom livro. Recomendo.

"Todos as manhãs, eu percorria a metade do meu caminho para a escola atravessando o hospital psiquiátrico, onde sempre encontrava os mesmos pacientes. Assim eu saída do jardim na frente da nossa casa por um portãozinho, via sentado, logo noprimeiro banco, um rapaz que adorava fumar cigarros em uma única tragada. Ele ficava esperando meu pai, que costumava lhe dar um dos seus Roth-Händle.(...) e ficava ali sentado, envolvido numa fumaceira, com os olhos enevoados de felicidade."

"Minha mãe sempre fora uma  pessoa exageradamente assustada, e meu pai, um homem pesado, com pendor para a letargia. A perda do filho potencializou essas características, tornando-as ainda mais nítidas. Como uma faca afiada, ela descascava a dor do seu equilíbrio que, durante anos, talvez tenha sido apenas simulado.
(...) Ja meu pai, em sua poltrona, parecia ter ficado tão pesado de sofrimento como nunca  antes. Como se sua carne tivesse se transformado em metal maciço. Nenhum guindaste no mundo seria capaz de içar da poltrona aquele homem de bronze que a vida havia quebrado"

"Cada vez mais tenho a impressão de que o passado é um lugar ainda mais inseguro e instável que o futuro. O que deixei para trás não deveria ser algo seguro, concluído, que já fora e só esperava pela frente não deve ser o chamado futuro a ser moldado? E se eu tiver de moldar meu futuro? E se de um passado permeado e moldado puder surgir algo  como um futuro em aberto? É um pensamento opressivo, mas, de vez em quando, a vida que tenho pela frente me parece um trecho feito sob medida para mim, a ser inevitavelmente percorrido, uma linha em que vou me equilibrar com cuidado até o fim."

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O tio Sylvester - Georgette Heyer

O Tio Sylvester
Georgette Heyer
Ebook A Estrada dos Livros

Phoebe Marlow é uma jovem que escreve novelas e seus personagens se baseiam nas pessoas que conhece ou passam pela sua perceção. Como todo romance de banca, uma moça inteligente à frente de seu tempo.
Numa de suas novelas, cria um personagem baseado no duque de Salford, Sylvester. E o arrogante duque procura uma esposa, consultando sua madrinha que também é avó de Phoebe. Logo ele se interessa pela jovem que poderia ajudá-lo na criação de seu sobrinho que estava sob sua tutela depois da morte do irmão. O que não estava previsto é que o romance escrito por Phoebe fosse sucesso e todos reconhecessem o cruel personagem no duque. Daí já havia envolvimento entre os dois.
Tudo previsível, um romance sem surpresas, bobinho, para não pensar.

A ruptura rahab - Gardenia Yud

Rahab - A Ruptura
Gardencia Yud
Blaze Editorial / 2016
Uma mulher releitura da passagem bíblica escrita em Josué 2, quando a prostituta Raab salva dois espias hebreus que estavam escondidos em Jericó. Na destruição da cidade, ela foi salva pela ação que resultou na fuga de Salmon e Ehud.
Na Bíblia,  Boaz é filho de Salmon e Raab, linha direta na genealogia de Jesus. 
O romance e a vida da Raab é uma ficção em que ela é vendida pelos familiares a uma casa de prostituição aos oito anos. Achando que a culpa seria de seus cabelos ruivos,  ela os arranca, ficando calva, sendo conhecida como "a prostituta calva". Sofre o preconceito pela falta dos cabelos e pela profissão.  
Assim,  os cabelos, assim como a vida de prostituição são alvos igualmente vergonhosos.
Com o acordo que faz com Salmon, por ter salvado a vida dele e de Ehud, é poupada na destruição de Jericó,  passando a viver na tribo de Judá,  junto com o salvador Salmon. 
Uma relembrança boa dessa parte bíblica.  
Vale a pena a leitura.
"Eu descobrira o Amor no degredo dos meus. Afastada daqueles que eu considerava meu povo, eu finalmente encontraria o que buscava. Mas era preciso coragem. O amor não chega para os covardes. Nem se entrega para rasos ou tolos. Não aceita ser tocado por mãos trêmulas de medo. O Amor é bom e puro. Ele quer você."